Diário de Aventuras

Relatos e dicas de viagens ao redor do Mundo

Uma overdose de paisagens!


Sábado – 26 de maio de 2007

Vejam como são as coisas: conheci a Ingrid numa rodoviária em Santa Catarina. Me aproximei quando ouvi uma conversa – dela com uma amiga e outro cara – sobre a estrada de ferro Paranaguá-Curitiba – escrevi um livro sobre uma viagem que fiz por esta região… Conversamos um pouco até a hora do ônibus e trocamos e-mails. Ela embarcou para Santa Maria e eu também – mas noutro ônibus.

Mantivemos correspondência – eu em São Sepé, ela em Santa Maria (a 60 Kms) – e ela me convidou para fazermos trilhas em Santa Maria – eu já fui guia de ecoturismo por lá… Numa ocasião que combinamos fazer uma trilha, a chuva atrapalhou os planos e ficou para a próxima…

Semana passada ela me deu um toque que um pessoal estaria fazendo um passeio em Vale Vêneto – um lugarejo de colonização italiana, próximo a Santa Maria. Eu já conhecia Vale Vêneto, mas ela me disse que o pessoal que ia era muito legal e sentia de não poder ir junto. Então resolvi ir para conhecer este pessoal.

Por coincidência a organizadora do passeio, chamada Ana Deise, já tinha participado de uma excursão que eu organizei – adivinhem pra onde? – pra Santa Catarina. Para o Carnaval de Laguna, de onde eu voltava quando encontrei a Ingrid. A Ana Deise também tinha lido um livrinho meu, de uma caminhada que fiz pelas praias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná – onde eu falo da semelhança com o Caminho de Santiago, na Europa – e me falou que ela acabou fazendo os 800 Kms do Caminho…

Fui na sexta-feira para Santa Maria, pois tinha que imprimir um material na gráfica, e passei a noite na casa do Jaldo – um amigo de verdade, que fez questão de levantar de madrugada e me levar ao ponto de partida para o nosso destino. O ideal seria eu ter pousado na casa de alguém que fosse ao passeio, para não ter que incomodar ninguém. Mas a turma ainda era desconhecida…

Saímos de Santa Maria por volta das 7:30 numa manhã gelada. Fomos em três carros e encontramos mais três, ou quatro, já em Vale Vêneto – reunindo um grupo de umas 20 pessoas. Nos hospedamos numa pousada de freiras – onde, há muito tempo, havia um colégio interno.

Deixamos as coisas na hospedagem e saímos para o dia ensolarado, de céu azul brilhante, rumo às montanhas que cercam o vale. Ainda foi possível encontrar resquícios de geada em alguns pontos dos gramados próximos. Adiante, passamos por um pontilhão sobre um córrego que desce das montanhas – com suas águas cristalinas cortadas pelas pedras. Não demorou muito para que começássemos a subir as primeiras rampas. Fizemos uma parada para lanche numa pousada-bar encravada na mata, ao largo da estrada.

Passamos por um condomínio muito estranho, no pé do morro – com uma arquitetura exótica integrada ao ambiente natural. Dizem que é de uma espécie de seita, ou filosofia, chamada ontopsicologia, e que até a Gisele Bündchen e o Roberto Carlos já estiveram por aqui – o local tem heliponto, para pousar helicópteros… Segundo uma pesquisa na internet: “o Recanto Maestro é a sede brasileira da Associação Internacional de Ontopsicologia (AIO – ONG com caráter consultivo especial junto ao Conselho Econômico e Social da ONU); é um espaço internacional planejado para hospedar e promover atividades e empreendimentos de cunho humanista. Tem como principal objetivo o desenvolvimento do Centro Internacional de Arte e Cultura Humanista, que é composto pelo Condomínio Residencial, Hotel Capo Zorial e pela sede da Associação OntoArte. O Recanto Maestro é uma referência mundial de integração entre meio ambiente, arte e desenvolvimento humano.”

No topo do serro tenho meu primeiro êxtase visual: paredões rochosos cravejados de pedras e matas virgens; lá em baixo, o vale coberto de nuvens, cercado por morros, e um descampado até o infinito – onde a terra encontra o céu, num azul acinzentado…

Saímos da estrada e entramos numa trilha por dentro de uma floresta – até aqui eu pensava que seria um passeio por estradas, mas a surpresa não poderia ter sido melhor. Depois da mata, voltamos à estrada e subimos mais uma rampa até o topo de um altiplano. Encontramos vários pés de bergamota (tangerina ou mexerica) na beira da estrada e nos fartamos de comer fruta madura colhida do pé.

Várias borboletas nos acompanharam por alguns lugares que passamos, mas uma resolveu pegar ‘carona’ no chapéu de um dos nossos…

Só andando a pé é que se pode ver, ouvir e sentir, tanta beleza!

Mais um trecho e chegamos num povoado onde almoçamos nos fundos de uma igrejinha. Depois da sesta e da seção de bobagens – a turma é muito animada – voltamos à estrada. Neste ponto eu já estava bem entrosado com o grupo – parecia que a gente se conhecia há anos… Tinha uma figura que não deixava o pessoal pará de rí – ‘não tem modéstia, o verme’, mas é gente finíssima!

Mais adiante, saímos da estrada para entrar num corredor; depois numa lavoura; passamos cercas até chegarmos numa trilha – quase tocando no céu – e, finalmente, num mirante deslumbrante! Mais fotos e bergamotas. Continuamos por uma trilha estreita dentro da mata, descendo o morro em ziguezague – rindo e dizendo bobagens… Saímos em mais um mirante magnífico e muito íngreme; onde sentamos para descansar. Foi aí que um amigo nosso sentou num formigueiro – daquelas formigas carnívoras… – e quase rolou morro a baixo, se tapeando e ameaçando um strip-tease… Eu fiquei com pena das formiga…

Mais alguns visuais de tirar o fôlego e chegamos nos fundos de uma propriedade rural – um descampado coberto por um tapete de grama verde. Mais fotos e bergamotas… Ninguém agüenta mais comer bergamota, mas também ninguém resiste a tanta bergamota linda pedindo: me comam, por favor!

Voltamos à estrada ao cair da tarde, e chegamos em Vale Vêneto na tardinha – cansados e satisfeitos, pelo aproveitamento do belíssimo dia de sol e muitas paisagens…

Depois do banho quente e da janta, assistimos uma mostra das fotos de um casal que fez o Caminho de Santiago recentemente. Foi mais uma bela viagem virtual – com direito a explicações detalhadas e todo tipo de comentário ‘maldoso’, com muitas gargalhadas…

O céu estrelado e a lua crescente convidavam para um passeio noturno; mas o cansaço e o frio, me fizeram desistir da idéia e correr para uma cama quente.

Domingo – saltamos cedo para pegar um café colonial às 7:30. Depois do café fui ver o sol pratear o vale, e procurar alguma geada, pelos campos gelados que cobriam um morro próximo. Abasteci o cantil com a água que brota da terra no pé do morro. Subi um trecho para ver a cidadezinha de cima. Mas voltei logo, para não me perder do grupo – que arrumava as coisas e se preparava para mais uma jornada…

O sol já estava alto quando pegamos a estrada. Uns já tinham ido embora, mas outros se juntaram ao grupo. E assim seguimos andando rumo às montanhas azuis…

A primeira parada foi numa casa de pedra abandonada. Dizem que o morador matou a família e se enforcou. Mas os fantasmas não estavam em casa…

Subimos mais uma trilha por dentro do mato até o topo de um altiplano. Mais um visual deslumbrante; e mais fotos e bergamotas…

O almoço foi no pátio gramado de uma casa. Uma velhinha simpática, de bengala, nos recepcionou… Cheguei a jogar bola com os netos dela, depois do almoço. Na verdade levei um baile de uma guriazinha de uns 10 anos, que jogava melhor do que os moleques…

Pegamos novamente a estrada e voltamos a fazer uma trilha na mata fechada. Descemos mais um despenhadeiro em ziguezague até um canyon, onde corria um riacho ao fundo. Mais um lugar magnífico! Descansamos entre as pedras – que formavam um jardim dos esquecidos.

Quiseram que eu – na qualidade de escritor – pronunciasse umas palavras sábias no ambiente solene – pura sacanagem, claro! As minhas palavras foram: vamos fazer um minuto de silêncio para ouvir a natureza. Não conseguimos fazer silêncio – nem com Vaca Amarela… Que turminha inquieta, essa!

Mas adiante chegamos numa morada belíssima – ao pé do morro. De onde dava para ver o canyon e os morros próximos – com seus paredões de pedra, cercados de mata… O gramado era mais um tapete verde cobrindo a topografia.

Depois de uma confraternização com o morador felizardo, voltamos à estrada e continuamos a marcha até retornar a Vale Vêneto.

Finalizamos o dia num bar no centro de Vale Vêneto, comendo pasteis e queijos, regados a um bom vinho.

Um pôr-do-sol entre as nuvens acompanhou nosso retorno a Santa Maria.

Se eu tive alguma dúvida em sair do conforto da minha casa para passar um fim-de-semana caminhando com desconhecidos, essa dúvida jamais deveria ter existido. Até hoje eu nunca me arrependi de botar o pé na estrada – principalmente quando é para botar o pé no mato. Acho que estou ficando viciado em paisagens, pois quanto mais eu vejo, mais eu quero ver – e eu já vi muita coisa linda neste mundo: da Amazônia à Patagônia (pra rimar)… Não sei como é que tem gente que prefere ficar em casa vendo o Faustão… Gentem!, o mundo tá aí pra gente desfrutar. A vida é pra ser vivida, não pra ser desperdiçada…

Só nesta jornada, encontrei vários tesouros: gente alegre e divertida, lugares belíssimos… Sem falar que troquei idéias e aprendi muita coisa… Foi uma overdose de paisagens – e de bergamotas também!

Autor: Celso Afonso Brum Sagastume
Email: celsoabs@plugnet.psi.br

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2 Comentários»

  Alexandre Siqueira wrote @

Gostaria de convidá-los a conhecer Juquitiba/SP que fica a apenas 70 quilometros da Capital e dispoe de uma das maiores reservas de Mata Atlântica e uma variadíssima infraestrutura de lazer, camping, ecoturismo e esportes de aventura entre outras atividades.

Venham nos conhecer

Portal de Turismo de Juquitiba
http://www.juquitiba.tur.br

  Goyaba wrote @

Cabe lembrar quem é o dono do “Recanto Maestro”

http://www.youtube.com/ontopsicologia


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